Dizem
que perfume, sabor de comida e música sempre nos remete a alguém ou a algum
lugar... Comigo esses três elementos funcionam sempre. Costumo “viajar” nessas
situações. Eu fiz esta foto no dia 21 de janeiro de 2013. Ela mostra a primeira
imagem que um viajante ver ao chegar a Barcelona. Ali abaixo cruza o rio
Potengi e, em seguida, se entra na pequena cidade que o margeia. Aquele prédio
amarelo é a igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A cidade está a sua
frente e aos lados. Eu fiz esta foto com o propósito de em algum momento
escrever o assunto que intitulei, paradoxalmente, de “Alegria, Alegria”. Eu
disse “paradoxalmente” porque registra um momento de muita tristeza em minha
vida. Essa imagem nunca me sai do pensamento. Em um dia de 1967, mamãe me
enviou para passar uns tempos na casa de meus avós, em Caiçara dos Barbosa. Foi
uma época difícil, de muitas perdas, que haviam começado três anos antes. Para
agravar seus problemas, ela acabara de pari uma criança natimorto. Creio que
nada machuca mais uma mulher do que perda um filho... Em seguida precisava trabalhar
e foi contratada pela família Matozo. Por isso procurou Walter Lopes e me
entregou aos seus cuidados para que me levasse até Barcelona. “Vavá” tinha uma
casa, naquela época, na Av. Alexandrino de Alencar, próximo ao Clube Atlântico. Lembro
que, enquanto esperava o carro que me levaria, um rádio tocava Golden Boy: “Pensando
nela” (“Bus Stop” da banda The Hollies). Depois,
Mungo Jerry com seu “In The Summertime”. É claro que eu não conhecia essas
músicas, mas elas ficaram guardas na minha memória. Só na fase adulta vim, a
saber, seus títulos. A viagem foi feita numa camionete C-10 da Chevrolet,
cabine dupla, de cor creme. Pertencia ao comerciante Sinésio Marques. Ao
contrario do que disse a letra dos Golden Boys, a tarde era muito quente. Não
sei quantos adultos estava no carro, só me lembro de ter viajado “espremido”
entre eles. Eu estava muito triste. Não queria ter me apartado de mamãe. Já
escrevi sobre crianças longe dos pais... É algo que deixa marcas profundas. Aquele
foi um dia marcante para mim. Um dia de mais uma quebra de cordão umbilical... Em
algum ponto da viagem o motorista ligou o rádio do carro e,quando chegou ao exato
ponto em que mostra esta foto, começou a tocar “Alegria, Alegria”. Nova música de Caetano Veloso para um Festival daquele ano. Era
a primeira vez que eu ouvia. E depois disso, todas as vezes que volto a
ouvi-la, em milésimos de segundos me remeto aquele ponto, aquele dia, e as
dificuldades que tive que enfrentar, como criança, a partir dali... Eu esperava
minha mãe todos os dias. ... Todos os dias... Todos os dias... Mas ela só veio
em meados de 1969. Há uma frase de Chico Potengy onde ele diz: “Ser apartado da mãe é a maior dor que
uma criança pode sentir. Ela levará aquela dor, na alma, pelo resto de sua
vida"... Já escrevi sobre a “Trilha Sonora de
Minha Vida”. E as cinco primeiras músicas, que mais me emocionam, são: A Triste
Partida, Súplica Cearense, Avenida 10, Meus Tempos de Criança e, Alegria,
Alegria. – [chico potengy]
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