sexta-feira, 12 de agosto de 2016

ALEGRIA, ALEGRIA

Dizem que perfume, sabor de comida e música sempre nos remete a alguém ou a algum lugar... Comigo esses três elementos funcionam sempre. Costumo “viajar” nessas situações. Eu fiz esta foto no dia 21 de janeiro de 2013. Ela mostra a primeira imagem que um viajante ver ao chegar a Barcelona. Ali abaixo cruza o rio Potengi e, em seguida, se entra na pequena cidade que o margeia. Aquele prédio amarelo é a igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A cidade está a sua frente e aos lados. Eu fiz esta foto com o propósito de em algum momento escrever o assunto que intitulei, paradoxalmente, de “Alegria, Alegria”. Eu disse “paradoxalmente” porque registra um momento de muita tristeza em minha vida. Essa imagem nunca me sai do pensamento. Em um dia de 1967, mamãe me enviou para passar uns tempos na casa de meus avós, em Caiçara dos Barbosa. Foi uma época difícil, de muitas perdas, que haviam começado três anos antes. Para agravar seus problemas, ela acabara de pari uma criança natimorto. Creio que nada machuca mais uma mulher do que perda um filho... Em seguida precisava trabalhar e foi contratada pela família Matozo. Por isso procurou Walter Lopes e me entregou aos seus cuidados para que me levasse até Barcelona. “Vavá” tinha uma casa, naquela época, na Av. Alexandrino de Alencar, próximo ao Clube Atlântico. Lembro que, enquanto esperava o carro que me levaria, um rádio tocava Golden Boy: “Pensando nela” (“Bus Stop” da banda The Hollies). Depois, Mungo Jerry com seu “In The Summertime”. É claro que eu não conhecia essas músicas, mas elas ficaram guardas na minha memória. Só na fase adulta vim, a saber, seus títulos. A viagem foi feita numa camionete C-10 da Chevrolet, cabine dupla, de cor creme. Pertencia ao comerciante Sinésio Marques. Ao contrario do que disse a letra dos Golden Boys, a tarde era muito quente. Não sei quantos adultos estava no carro, só me lembro de ter viajado “espremido” entre eles. Eu estava muito triste. Não queria ter me apartado de mamãe. Já escrevi sobre crianças longe dos pais... É algo que deixa marcas profundas. Aquele foi um dia marcante para mim. Um dia de mais uma quebra de cordão umbilical... Em algum ponto da viagem o motorista ligou o rádio do carro e,quando chegou ao exato ponto em que mostra esta foto, começou a tocar “Alegria, Alegria”. Nova música de Caetano Veloso para um Festival daquele ano. Era a primeira vez que eu ouvia. E depois disso, todas as vezes que volto a ouvi-la, em milésimos de segundos me remeto aquele ponto, aquele dia, e as dificuldades que tive que enfrentar, como criança, a partir dali... Eu esperava minha mãe todos os dias. ... Todos os dias... Todos os dias... Mas ela só veio em meados de 1969. Há uma frase de Chico Potengy onde ele diz: “Ser apartado da mãe é a maior dor que uma criança pode sentir. Ela levará aquela dor, na alma, pelo resto de sua vida"... Já escrevi sobre a “Trilha Sonora de Minha Vida”. E as cinco primeiras músicas, que mais me emocionam, são: A Triste Partida, Súplica Cearense, Avenida 10, Meus Tempos de Criança e, Alegria, Alegria. – [chico potengy]

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