Encontrei essas fotos, feitas no ano passado, e confesso que fiquei
triste, mas depois riu muito me lembrando de Geraldo Peregrino. Já
escrevi sobre ele. Alguns aqui leram. Geraldo Peregrino da Silva foi uma
das raríssimas pessoas especiais (o especial aqui é no sentido literal
da palavra!) que tive o privilégio de conhecer nesta vida. Esse prédio
abandonado era onde funcionava sua oficina, no Bairro da Ribeira -
especialistas em Galáxia e Mavericks. “Irmão”
Geraldo, como todos nós o chamava,adorava uma frase feita. Quando
alguém não o entendia, ele dizia: “Esse sujeito está mais por fora do
que dedo de franciscano”. Ou então: “Esse está mais por fora do que
língua de cachorro cansado”. Quando alguém não acertava, dizia: “Esse aí
está mais enrolado do que bobina de Ford 68”... Era suas pérolas quase
que diariamente. Ele fava muito serio e eu morria de rir. Felizmente
nunca reclamou dos meus destemperos. Ele sabia quer no fundo suava
engraçado. E talvez fosse essa a ideia... Também “falava francês”: “Si
lá portê tivê fechê, púli pru riba”. Uma noite eu estava em sua casa, e
a TV Globo exibia uma apresentação do tenor Luciano Pavaroti (é assim
que se escreve?). Numa parte da música o italiano abriu muito a boca
para ser mais bem ouvido, creio eu. Simplesmente Geraldo, apontando para
a tela da TV, disse: “Esse rapaz errou a nota. O certo seria...”, e deu
um berro que fez todos na sala cair na gargalhada. Muito sério, olhava
para cada um de nós. Ele falava desviando os olhos para baixo. Depois da
crise de risos, olhou pra mim e perguntou: “Tá vendo aí, meu “irmão”,
como se canta?” E quem eu era para discordar do cara que estava
ensinando a Pavaroti cantar... Geraldo contava uma historia que ele
presenciou, ainda nos anos de 1950, em São José de Mipibú. Era época do
carnaval, um amigo seu foi convidado para ensaiar marchinhas com o
pessoal amigo. Acontece que o sujeito era fanho. Ele preparou a
rapaziada, dizendo: “Guando eu disser guebra, guebra, guabiraba,cês diz,
‘guero vê guebrá’”. O pessoal concordou. O fanho começou: “Guebra,
guebraguabiraba”. O pessoal respondeu: “Guero vê guebrá”. Furioso o
homem reclamou: “Pessoal, guando eu disse, ‘guebra, guebra Guabiraba,
ocês diz, ‘guero vê guebrá’. Mas num é pra dizê ‘guero vê guebrá, não!” –
chico potengy
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segunda-feira, 25 de julho de 2016
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
WANDICK X - MATANDO A SAUDADE NA RIBEIRA
Hoje pela manhã fui ao
bairro da Ribeira. Na volta do compromisso passei em Wandick... Sinceramente,
meus adoráveis e pacientes amigos, para mim, não é nada fácil escrever: “passei
em Wandick”... Meu amigo Wandick “inventou” de morrer (como ele dizia de alguém
conhecido!) em 03 de agosto do ano passado – seis dias antes de completar 81
anos. Eu não voltei lé desde aquela perda. Ruth, sua filha, estava. Me ofereceu
um sorriso, mas, percebi tristeza em seu olhar... Não é nada fácil perder quem
amamos. Principalmente pessoas como ela, ligadíssima ao pai. Tanto como filha,
bem como profissionalmente. Ruth seguiu seu oficio: é ourives de “mão
cheia”, como diria mamãe. Altamente profissional na arte do ouro. Eu fiquei
mais de uma hora conversando com ela. Tema principal: Wandick e suas “coisas”.
Por exemplo: no mês de novembro ele incentivava os amigos visitar o urologista
para o exame de preventivo de próstata. E seu conselho era franco e de uma “sutileza”,
só comparado ao coice de uma mula: “Existe o médico de olho, e o de cu. É a
mesma coisa”! Assim mesmo. Simples, não? Foi por causa de Wandick que eu abri
mão de, quando morrer, ir para o céu - “César, me responda uma coisa: no céu
tem mulata do Sargentelli? Eu morrendo de rir... “César, tem forró de Luiz Gonzaga,
no céu? O que é que gente como nós vai fazer no céu, um lugar onde só tem ‘minino’
dedilhando uma lira, e velhas rezando?” Eu ria de me acabar, com a cara série
dele olhando para mim. Era humanamente impossível visitar Wandick e não sair
rindo. Ele mexia com vivos, com mortos e quem mais ele se lembrasse. Nossa,
relembramos tantas situações engraçadas. As paredes do estabelecimento de
Wandick exibem muitas fotos. Amigos seus de longa data. Muitos deles eu
conheci. Gente que fez nome no bairro da Ribeira. Fiz uma cópias e descreverei algumas
delas... – [cp]
Luiz
é um amigo e colega de Café São Luiz. Ele é concunhado de Wadick.
Também é ourives. Recusava-se a entrar nessa “galeria”: “Tá doido? Aí só
tem gente que já morreu ou está com os dias contados”... Wandick dizia:
“o mais novo, aqui, morreu com 80 anos”...
"Santinho" para a Missa.
A arte de Wandick na imprensa de Natal.
A
história que vou contar é para quem tem fé e acredita em milagres.
Wandick não era um homem religioso. No começo dos anos 90 ele foi ao
Recife para um cirurgia do coração. No pós operatório, recebeu a visita
de um homem. Ele não sabe por onde entrou, nem por onde saiu depois que
se foi. Aquele ser misterioso disse apenas: “Por que você não faz a
mesma promessa que seu irmão fez?” Wandick lembrou-se
que há muitos anos, um de seus irmãos havia feito uma promessa com
Santo Antônio – que, se alcançasse a graça, iria de São Mamede a Patos
(ambas na Paraíba) a pé, reverenciando o santo em uma capelinha. Wandick
fez a promessa e voltou para casa inteirinho, sem complicações
cardíacas. Depois repetiu a viagem do irmão. Essa imagem foi colocada em
seu estabelecimento. O quadro, mostrando a Igreja do Rosário dos Pretos
(e a ponte Newton Navarro) foi presente do vizinho, o artista plástico
Flavio Freire.
Da
esquerda para a direita: Wandick, um desconhecido, para mim, Ruth, seu
Assis Gomes e Jessé – o fotografo oficial de Wandick. Esse seu Assis
faleceu em 2012, se não me falha a memória. Ele foi um dos primeiros
proprietários de ônibus urbanos em Natal. Também funcionário da
prefeitura. Foi uma das pessoas mais educadas que tive o privilegio de
conhecer. Falava com mansidão e JAMAIS(!) pronunciou um palavrão, ou
falava mal de alguém. Acontece que Wandick provocava o pobre homem, mas,
nada de negativo, sobre o próximo, saia de sua boca. Que pessoa
fantástica! Ele me cumprimentava como se estivesse diante da maior
autoridade tupiniquim que jamais existiu...
Da
esquerda para a direita: o filho de seu Júlio César (de César e Cia -
um dos estabelecimentos mais importantes do bairro da Ribeira nos anos
60/70. Ainda em funcionamento), Luiz ("carnaval") Gonzaga, Wandick, um
desconhecido, para mim, Dinarte e Ruth.
Pedi
a Ruth para repetir um gesto de seu pai: Quando chegava alguém e
perguntava sobre os fotografados, Wandick pegava esse cabo de vassoura e
ia contando a vida de um por um. Quando não sabia, inventava... E
sempre aumentava 10%...
Ruth Brito: uma artista artesanal na arte de fazer joias. De suas mãos nascem belíssimas peças, que enfeitas pescoços, braços e dedos do natalense de bom gosto...
Fragilizada, com sua perda, Ruth trabalha sozinha - com as boas lembranças que o pai deixou...
Esta
foto tem 17 anos. Jessé apareceu e quis fotografar Wandick. Ele disse:
"Jessé, se você me fizer uma foto sem essa 'papada de peru', eu lhe dou
uma máquina nova!" O homem conseguiu, mas, Ruth teve de puxar a pele da
nunca do pai, que teve uma crise de riso. Jessé, um artista na arte de
fotografar, conseguiu ganhar sua nova máquina.
sábado, 11 de abril de 2015
PORTUGUÊS: NEM JOAQUIM NEM MANOEL!
Antes de
eu tocar no assunto principal, um preâmbulo se faz necessário. O cidadão da
foto (aqui na extrema esquerda) é meu falecido sogro - vestindo smoking - numa
festa, no dia de sua formatura (anos 1930) em Recife, Pernambuco. Fiz a foto
"troncha" propositadamente. Creio ser a única pessoa a tê-la. Minha
mulher não me autorizou publicá-la. Um dia talvez, combinando com a família... Aliás, Graça odiava o que
escreviam sobre o pai: "Esses 'fíi' de rapariga só falam das putarias dele.
Precisam contar seu lado bom. Essas bobagens não elevam nada sua
história", reclamava indignada. Eu havia me prometido jamais escrever algo
sobre ele. Hoje vou quebrar o jumento - uma vez que, em 17 de julho, a familia irá comemorar 100 de seu nascimento. Em 1973, quando cheguei ao Bairro da
Ribeira, para ser gazeteiro, Seu Olívio Domingues da Silva foi um dos primeiros
comerciantes que conheci. Ele era português, de Portugal. Chegou a Natal muito
jovem. Aqui foi trabalhar de garçom na Confeitaria Delícia. Com o tempo
tornou-se proprietário do estabelecimento. Vendia tudo que era bom: vinho de
todas as marcas, queijo de todo os tipo. Enorme variedade de biscoitos, doces,
chocolates e confeitos, entre outras guloseimas. Detalhe: só entrava quem tinha
dinheiro. Os artigos eram todos importados, numa Natal "podre de chique".
"Resíduo" do tempo dos americanos na Terra de Café Filho. Roberto
Freire era habitual frequentador do estabelecimento. Ele, Luiz de Barro, Jessé
Freire e outros que tinham dinheiro no bolso. Eu disse DINHEIRO! Minha mulher
contava que seu Olívio lhe tomava nos braços e a sentava na balança sobre o
balcão (um dia dos anos de 1990, eu e Graça o encontramos em um supermercado.
Se abraçaram fortemente. Uma alegria sem tamanho. Ela relembrando sua época de
criança na Confeitaria Delícia. Ele morreria pouco tempo depois com mais de 90
anos). O engenheiro gostava de "atanazar" a vida do português. Fazia
mil e uma com "gajo". Seu Olívio jamais "esquentou a
cabeça" com seu inconveniente freguês. Pois bem, uma noite, Dr. Roberto
cheio de "água mineral" na cabeça (e já "pra lá de Bagdá")
agarrou o homem e disse: "Olívio, venha cá! Todo português se chama
Joaquim ou Manoel. Mas, você, não!" No que o homem pacientemente, e usando
seu fortíssimo sotaque lusitano, concordou: "É verdade, doutor. Me chamo
Olívio." Roberto Freire abraço o comerciante e declarou: "Este é
Olívio Domingues. Português que não se chama Joaquim, nem Manoel. Mas, mora no
Bairro de Petrópolis, na Rua Joaquim Manoel!" - [cp]
segunda-feira, 16 de março de 2015
GERALDO PEREGRINO
Antes de entrar no assunto principal, um preâmbulo se faz necessário... Eu costumava dizer para minha mulher que ela havia me conquistado pela barriga. Graça me olhava com um olhar de fulminar um ser menor... Mas, é verdade, ela nasceu para fazer comida. Conheci três mulheres que sabiam cozinhar feijão: Dona Francisca, esposa do meu saudoso amigo, Raimundo Aureliano, minha mulher e “Irmã” Izoletina. Conheci Geraldo Peregrino da Silva em novembro de 1978. Fui convidado por jovens mórmons (Elder Anunciação, do Rio Grande do Sul, e Elder Garrett, de Utah, Estados Unidos da América. Ambos representando a então Missão Brasil - Rio de Janeiro) a participar de uma de suas reuniões. Eles formavam um pequeno grupo e se reuniam em uma casa na Rua Alexandre Baraúnas, Conjunto Candelária. Naquela época o bairro estava começando. O primeiro a liderar aquele grupo, em Natal, havia sido o zagueiro do ABC Futebol Clube, Pedro Pradera. Mas, um certo "irmão" Carlos Bastos, carioca professor de tênis era o novo líder quando lá cheguei. Desci do ônibus na BR 101 e subi por uma íngreme estrada de barro, cheia de marcas deixadas pela chuva, com muito mato dos lados (muito provavelmente a atual Rua Moura Rabelo). Não se via ninguém. Debaixo daquele sol escaldante de uma manhã de domingo, depois de andar sozinho por mais de um quilômetro, encontrei o endereço que me fora dado. Ao entrar no recinto a primeira pessoa que vi foi Geraldo Peregrino. Vestia uma calça azul, camisa branca, mangas curtas, e gravata. Sapatos pretos impecavelmente limpos. Apertou minha mão e fez uma reverencia baixando a cabeça. Saudou-me chamando de “irmão”. Seus braços eram tão musculosos que eu pensei que outrora havia sido lutador. Eu não sabia, mas, estava conhecendo uma pessoa que faria muito por mim no futuro – sem nada pedir! Geraldo trabalhou, quando jovem, na construção da Base Aérea dos americanos, em Parnamirim. Anos depois foi mecânico da Ford. Quando a empresa fechou, em Natal, abriu sua própria oficina. Era especialista em Maverick e Galaxie landau. Foi com ele que aprendi a dirigir carro hidramático. Casado com Izoletina Bezerra (com quem teve seis filhos: três homens e três mulheres), por anos viveu uma vida de boemia como poucos. E foi homem de brigar. Sair na porrada. Mas um dia conheceu a fé mórmon e abraçou com a mesma valentia que usava para agredir seus antigos desafetos. Passou a defender os ensinamentos daquela religião com unhas e dentes. Tornou-se um de seus líderes em Natal. E foi dele a ideia de expandir a Igreja à Parnamirim. Usava seu carro, com aqueles rapazes estrangeiros dentro, para visitar amigos. Não importava a distância! Sua casa lembrava um hotel, com tantos jovens de camisas branca, e gravatas, sentados à mesa. Sua esposa foi a primeira presidente de uma organização de senhoras, daquela religião norte-americana, na Terra de Ferreira Itajubá. Há poucos anos houve uma homenagem aos “pioneiros” que fundaram a Igreja Mórmon. Seu nome foi esquecido em favor da mãe de um privilegiado líder local (desfazendo - não para mim - o mito de que “mórmons não mentem”). Um dia Geraldo Peregrino foi vítima de uma maldade. Ele havia alugado uma casa, na Rua Jundiaí, esquina com Av. Floriano Peixoto. Grande, mas, apesar de muitas janelas, quente. Ele, como líder, solicitou ventiladores para dar um pouco de conforto aos membros que ali freqüentavam. Numa loja de um amigo comprou os ventiladores de que precisava. Pagou do seu bolso. Meses depois, quando os ventiladores solicitados chegaram, Geraldo levou para sua casa e deu “destino”. Foi aí seu erro. Um membro da igreja (que vivia "socado", dia e noite, dentro da casa do casal), associado a outros canalhas, se achou no direito de denunciá-lo. O caso foi levado à João Pessoa, na Paraíba, e Geraldo acabou perdendo seu cargo e quase expulso da religião. O golpe lhe foi “fatal”. Ele voltou para sua casa, de onde nunca mais saiu. Em meados dos anos 80 Geraldo Peregrino perdeu a visão. Vítima de uma feroz diabetes. Também foi enfraquecendo suas carnes. Aqueles músculos que tanto me impressionara, naquela manhã de um domingo de novembro de 1978, haviam sido substituídos por peles flácidas. Confesso que uma tristeza imensa invadiu minha alma. Aquele não era o Geraldo que eu tanto gostava, a quem eu muito devia - favores que jamais pagarei. Foi difícil ver ali o que o tempo faz com um ser humano: reduz a nada! O maior golpe Geraldo ainda iria sofrer. “Izolinha”, como ele chamava sua mulher, teve um problema cardíaco e foi hospitalizada as pressas. Onze horas de cirurgia e não resistiu. Era o dia 14 de abril de 2000. Dias antes ela havia conversado com minha mulher e lamentava o sofrimento do marido cego - e desprezado pela religião que aprendera a amar. Nada de visitas. Nada de um conforto espiritual. Geraldo faleceu agora em 2012. Longe, muito longe de sua fé. Soube um ano depois. Havia muito que não o visitava. Ele mudara de casa e eu não sabia como encontrá-lo. Foi uma perda grande para mim. - [cp]
terça-feira, 12 de agosto de 2014
WANDICK IX
Muita
gente na missa de Sétimo Dia de Wandick. Igreja lotada de gente
conhecida. É muito bom semear amizade verdadeira... - fcésar
Fotos da nave da Igreja do Bom Jesus das Dores, Ribeira, em 09/08.
Fotos da nave da Igreja do Bom Jesus das Dores, Ribeira, em 09/08.
WANDICK IV
Como
já disse antes, Wandick e Dinarte, amigos "presepeiros", inventaram de
fazer homenagens aos seus queridos amigos falecidos, comendo chocolate.
Eu mesmo comi alguns. E o doce era Diamante Negro. Algumas poucas vezes
Sonho de Valsa. Um dia eu cheguei em sua oficina perguntando as
novidades. Ele me deu uma de morte, mas, frisou: era ruim. Mereceu só um chocolate
baton! - fcésar
Detalhe: eu adoro baton!
Texto de 04/08.
WANDICK III
Uma vez um casalzinho apaixonado foi
buscar as alianças que havia encomendado. Uma peça cheia de detalhes e tudo o
mais. Quando Wandick disse o preço a pagar, a moça reclamou:
- Tudo isso seu Wandick?
Na "bucha" ele respondeu:
- Ta saindo mais barato do que sua primeira feira! - fcésar
Texto de 04/08.
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