sábado, 2 de janeiro de 2016

O CINQÜENTA


O homem, sentado nos batentes de uma esquina do Bairro das Quintas, sou eu. Refazendo uma cena do dia 02 de janeiro de 1966... Hoje faz cinqüenta anos que cheguei, em definitivo, a Natal. Chovia. Saímos de São Tomé na madrugada. Chovia fino. Tivemos que vir na parte traseira do misto, pois não havia lugar na boleia. Mamãe tinha pressa de sair daquele lugar. Já havíamos saído apressados de Barcelona, em 1964. Mamãe vivia um drama familiar. Suas inconsequentes escolhas haviam destruído o nosso lar. Mas não quero aqui encontrar, ou apontar, culpados. Fazer julgamentos. Sentencia-los. Os principais personagens, protagonistas do começo de minha história, já faleceram. Não teriam como fazer suas defesas. Falar de seus motivos. Porque se comportaram com tanta “brutalidade”. Mas, o que criaram para minha mãe (incluindo ela própria), refletiu diretamente em mim. Faz parte de minha História de Vida. Crianças sempre viverão sob influência das decisões dos adultos. Algumas dessas decisões são desastrosas, e deixam marcas para a vida toda. A vida é feita de escolhas. Mamãe apostou e, perdeu. O carro varou a madrugada, sacolejando na estrada de 120 quilômetros até a capital. Sentamos em bancos de madeira, encostados na grade lateral. Próximo de mim vinha bodes, carneiros, cabras e porcos. Alguém puxou uma lona amenizando a chuva que aumentava à medida que nos aproximávamos do litoral. Naquela época a viagem levava cerca de três horas. Só encontrávamos a “pista” no lugar denominado “As Marias”, município de Macaíba. Até lá, o carro desviava de lama, riachos cheios, poças d’água. O dia claro nos alcançou na metade do caminho. Naquela época a entrada de Natal, para quem vinha do sertão, era no KM 6. Havia uma corrente. Guardas do governo faziam inspeções nos veículos e em seguida baixavam a corrente autorizando a entrada na cidade. Cerca de uns três quilômetros, em direção ao centro, o carro parou na Rua Dr. Mario Negócio, esquina com a Rua São Geraldo. Também chamada de “Rua Nova”. Descemos. Eu estava com fome. Não me lembro de ter comido algo durante a viagem. Toda a “mobília” de mamãe foi descida: um baú com louças e outros utensílios, e uma mala com nossas roupas. Eu vestia um conjuntinho azul – camisa e uma bermuda, com bolsos “faca”, um pouco acima dos joelhos, sapatos pretos. Lembro que minha camisa tinha quatro bolsos - não sei para quê, se eu não tinha dinheiro... Meu “simca shabor” (azul com pneus pretos) nas mãos. Imediatamente esfreguei o carrinho naqueles batentes, totalmente alheio aos reais acontecimentos. As crianças tem a incrível capacidade de brincar, mesmo nas adversidades... Os animais também foram descidos do caminhão-misto. Um jovem os esperava com cordas nas mãos. À medida que os bichos desciam, ele os amarrava em duplas. O dono dos animais, que viajara conosco, também preparava as cordas. Mamãe sentada, sem saber o que fazer, ou para onde ir, de olho em minhas ações. Depois que todos os animais foram descidos, o carro partiu. Os dois homens ficaram envolvidos com seus animais. Um tempo depois o mais velho se aproximou de mamãe, perguntando se ela esperava alguém. Sua resposta foi lágrimas. Estava sozinha naquele momento. Não tinha a quem recorrer. Chorei também. Embora não sabia o porquê. Refeita, ela explicou que não tinha para onde ir. Estava ali sem destino. Aquele homem falou com o outro. Disse que lhe esperasse, pois precisava ir a sua casa. Lá ele conversou com sua esposa. Falou de uma mulher com uma criança, que viera no misto. Estava sentada na calçada da esquina da Rua São Geraldo e não tinha para onde ir. Num primeiro momento a mulher pensou se tratar de um “contrabando”, do marido, com um filho dele. Eu nunca soube o verdadeiro dialogo entre o casal Zuza Déro e Rita. Ele voltou. Sua Filha Riselda vinha junto. Uma cara muito séria. A dúvida lhe deu aquela reação no semblante. Embora seu pai fosse um homem “sério”. A moça era noiva daquele jovem que ficara com os animas, Francisco (já falecido). Seu apelido era “Chico Bodinho”. Seu Zuza disse à mamãe que sua casa era humilde, mas, iria nos abrigar até que ela pudesse se organizar. Moramos por dois anos com aquela família, na Rua Santa Luzia.  Aliás, saímos de lá sob protestos. Até o fim dos anos 80, jamais perdemos o contato com eles (ambos já falecidos). Sempre nos recebiam com alegria e reclamavam muito de nossa demora em visita-los. Desejo muito que os “Seres de Luz” os tenham em um lugar destinado àqueles que fizeram o bem ao seu próximo – pois eu jamais os pagarei o que lhes devo... Quanto a meus dias em Natal, não posso dizer que é, para mim, a “Oitava Maravilha do Mundo”. A “Cidade dos Magos” é um lugar de ricos, brancos e bonitos. Não é fácil viver aqui. Por isso, jamais tive a ilusão de dizer: “Natal, cidade que me acolheu”. Eu estou aqui por necessidade. Ou, de metido mesmo! Aquela “hospitalidade”, de que tanto falam os turistas, comigo não funcionou muito bem. Salvo raras raríssimas exceções, como aquele casal, Zuza e Rita. – fcésar barbosa



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