Em 15 de maio de 2005 eu vi o impressionante e polêmico filme de Mel Gibson, A PAIXÃO DE CRISTO (The Passion of Christ, 2004). Um trabalho de altíssima competência deste que vem se destacando como uma das grandes promessas da direção cinematográfica. Gibson não é o primeiro ator a dirigir. Antes dele tivemos uma brilhantíssima visão de contar histórias com Charles Chaplin, Orson Welles, Woody Allen, John Wayne, entre outros. Este último acreditou em dois temas - as derrotas do Álamo e a do Vietnã - que não interessava aos americanos, levando suas produções a falência. Para mim o roteiro do filme de Gibson não saiu dos livros de Mateus, Marcos, Lucas e João. Creio que ele escondeu de tudo e de todos que o retirou (ipsis litteris!) do primeiro volume do livro OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA, do espanhol J. J. Benítez. Uma grande jogada para não pagar direitos autorais. Nenhum dos quatro evangelistas conta aquela história com tanto realismo e de assombrosa brutalidade, como o "Major", de Benítez. Aliás, percebe-se, no livro, que "João" omitiu verdades do alto grau de terrorismo psicológico e físico - um julgamento ilegal, arbitrário, na calada da noite, agravado pelo desconhecimento por parte das autoridades romanas - por que passou o Messias. Não é à toa que há estudiosos que duvidam da autoria daquele apóstolo no livro que leva seu nome. Ele foi dos "doze escolhidos", o único presente em toda caminhada rumo ao Gólgota. Seu livro - se de fato foi escrito por ele - deveria trazer riqueza de detalhes do calvário do Cristo. Ou, teve seu fiel testemunho propositadamente retirado, para proteger interesses do monopólio religioso cristão.As ferramentas do flagelo, e os diálogos, em aramaico, hebreu e latim, são o que há de mais preciso no filme. Gibson foi extremamente feliz na idéia. Kevin Costner, no seu épico Dança Com Lobos (Dances With Wolves, 1990), usou a língua - quase extinta - "lakota" para os diálogos indígenas; dando maior credibilidade ao assunto. Hollywood não consegue contar uma história, sem pincelá-la de fantasias. Mel Gibson não foi diferente: numa fala de Pôncio Pilatos, o governador romano ordena o centurião Abenader: "Assegure uma punição 'severa'!", referindo-se ao flagelo que deve sofrer o "Nazareno". Creio que "severo", para definir rigor, não era uma palavra usada naquela época; e só depois que o Imperador Severo infligiu pesadas perseguições aos cristãos de seu tempo. A outra "fantasia" é a cena onde uma mulher limpa o rosto de Jesus e sua imagem ensangüentada fica gravada no pano. A história de "Verônica", na bíblia, não existe! É uma das muitas criações do imaginário fanatismo Católico Apostólico Romano. Como os "três" reis Magos: Gaspar, Baltazar e Belchior; o 25 de dezembro como dia do nascimento de Jesus, etc...
O CAST...
JESUS, vivido por James Caviezel, tem aspecto de galã de Hollywood, onde a regra é "pintá-lo" com os traços "americano", de Jeffrey Hunter, no papel, em Rei dos Reis (King of Kings; 1961, d,e Nicholas Ray).
MARIA, vivida por Maia Morgenstern, teve uma atuação terna, presente e paradoxalmente discreta, consciente da estranha e divina Missão do seu filho. Sua simplicidade contrastou anos-luz, com a péssima atuação de Jacqueline Bisset, em Jesus (idem; 1999, de Roger Young): "Maria" de gestos artificiais, sofisticada, independente, de opiniões avançadíssimas, numa Palestina onde a mulher era a quinta pessoa, depois de ninguém.
PÔNCIO PILATOS, com o búlgaro Hristo Naumov Shopov, perfeito!
Aliás, o Procurador da Judéia sempre esteve bem representado no cinema; até na
comédia A Vida de Brian (Life of Brian; 1979, de Terry Jones), onde Michael
Palin o fez caricato e gago. Outros grandes nomes passaram por este papel:
Richard Boon, Hurd Hatfield, Arthur Kennedy, Telly Savalas, Rod Steiger e,
David Bowie. Harvey Keitel fez um excelente Pilatos, em A Investigação (L'
Inchiesta, 1987, de Damiano Damiani), preocupado em salvar seu pescoço, das
mãos de Tibérius, por causa da crucificação, e ressurreição, de um judeu
chamado Jesus, três anos antes. Em Ben-Hur (idem, 1959, de William Wyller),
Frank Thring investe todo talento da aristocracia romana, para coroar um
Charlton Heston, vencedor da corrida de bigas.
JUDAS, Luca Lionello, estar muito bem, no papel de traidor. Mas, o
melhor dos "Judas", creio, é o de Rei dos Reis: Rip Torn. Ele é o
mais consciente dos "traidores". Membro da resistência zelote, contra
a Ocupação Romana na Palestina, acredita que Jesus é O Messias "libertador".
PEDRO: o meu "pescador" preferido está em Quo Vadis;
vivido por Finlay Currie. Claro que ele é um "Pedro" amadurecido, já
desprovido de dúvidas sobre sua missão. Um homem vivendo sua fé e a proclamando
com conhecimento, poder e autoridade. O "Pedro" de Gibson, Francesco
De Vito, é covarde e de atuação débil.
HERODES ANTIPAS, tem em Luca De Dominicis uma interpretação
exagerada e degeneradamente "aviadada", indeciso e sem moral; diante
dos líderes judeus. Também foi assim em Rei dos Reis, com Frank Thring;
brilhante no papel, diga-se de passagem. Aliás, Thring tecia todos os seus
personagens com seu talento, aperfeiçoado em escolas de artes britânicas.
ABENADER, Fabio Sartor, é o centurião visivelmente dividido entre
a inocência de Jesus e a responsabilidade do controle sobre a turba exaltada.
John Wayne fez o papel, em A Maior História de Todos Os Tempos (The Greatest
Story Ever Told, 1965, de George Esteves); e acompanha "Jesus" (Max
Von Sydow), no calvário, por 12 minutos. Por fim, diz:" Este era, verdadeiramente,
o Filho de Deus!" Contudo, recomendo a obra de Mel Gibson - que é, sem dúvida, um dos grandes
filmes de todos os tempos - devido a temática, a fotografia, o realismo, o
detalhe de cada cena e, pela reflexão que poderemos fazer do verdadeiro
propósito da Paixão de Cristo.- [cp]
Texto de 08 de maio de 2008


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