No
último dia 02 fez 20 anos da morte dos cinco integrantes do grupo
Mamonas Assassinas. Naquela época eu editava o zine alternativo, O
Potiguar. A calçada do Café São Luiz era um campo de ideias e vários
jornalzinhos circulavam entre os bebedores de café. No dia imediato ao
do acidente publiquei a edição de número 09 do V Ano.. Título: Os
Mamonas do Bem. Abaixo segue o texto na integra. - cp
*
OS MAMONAS DO BEM
Manhã
do dia 03. 0 Brasil acorda com a triste notícia de que o pequeno avião
que caiu na noite anterior na Serra da Cantareira, São Paulo, trazia um
grupo de nove pessoas; dentre elas os cinco integrantes da nova mania da
garotada, e de muitos adultos também, Mamonas Assassinas. Não deu para
acreditar! Depois da morte de Ayrton Senna o filme voltava a ser rodado
outra vez: sucesso, futuro promissor, talento, dinheiro; muito dinheiro,
planos e mais planos. E tudo caiu com um avião. Milhões de perguntas
povoaram a mente das pessoas: por que assim? Por que com eles? Por que
tão jovens? Como se a morte fosse um privilégio só dos velhos.
Não
faz muito tempo eu escrevi sobre a importância da morte em nossas
vidas. Com ela nós alcançamos a Vida Eterna. Todos precisamos morrer,
por uma necessidade espiritual e biológica. É claro que não vamos sair
por aí procurando a morte, mas um dia ela corre ao nosso encontro, e
como só nos preparamos para a vida (um paradoxo, pois a vida é
passageira), quando ela chega é um desastre entre os que ficam. Continuo
acreditando na necessidade de nos prepararmos para a vida em “outras
moradas”.
Na
morte de Dinho, Samuel, Sérgio, Bento e Júlio, a maior especulação era
com relação ao sucesso alcançado tão rápido, depois de muitas
dificuldades no anonimato, e a perda, de forma violenta e brutal. Como
sempre pensamos no sucesso material. Aquela que nos garante a
sociabilidade aceitável: fama, poder e glória. Com isso não só
esquecemos do sucesso espiritual como também nos distanciamos dele. Os
Mamonas alcançara esse sucesso espiritual. Ao longo de pouco mais de
seis meses eles concentraram muitas energias positivas. Por onde
passavam eles assassinavam a tristeza e o desânimo. As pessoas em sua
volta exorcizavam todo e qualquer sentimento de derrota. Só havia espaço
para a alegria. Com isso foi criada uma auréola de positividade e esse
era o sucesso que os seus espíritos precisavam para alcançar o nirvana. O
supremo. E possível que o leitor argumente que eles cantavam músicas
com letras obscenas, mas eu defendo-os mostrando que tudo é obsceno
neste país. Aliás, o Brasil já nasceu obsceno. Educa seus filhos na
obscenidade da mentira, da corrupção, na desigualdade social, na
selvageria do capitalismo com seus obscenos frutos: falcatruas, salário
mínimo de cem reais para um trabalhador. A obscenidade da mortalidade
infantil, as verbas destinadas para a saúde desviadas para programas
eleitoreiros; para contas fantasmas ou para contas numeradas na Suíça. A
obscenidade da Imprensa Marrom. A obscenidade do Judiciário
comprometido com o sistema. A obscenidade da exploração religiosa por
todas as Igrejas mercantilistas pseudo cristãs. A obscenidade da
discriminação, das intermináveis viagens de Fernando Henrique Cardoso,
bancadas com o dinheiro do contribuinte. A obscenidade da exploração ao
menor, tirando-o da sala de aula e jogando-o nas mãos de empresários
inescrupulosos. A obscenidade da prostituição infantil, do sangue
contaminado de Caruaru. A obscenidade do escândalo dos Bancos, das
reformas de FHC para derrotar o trabalhador brasileiro, a pasta
cor-de-rosa. A obscenidade da representação política escolhida
democraticamente (sic) para defender o povo. A obscenidade da
hipocrisia, da inveja, da ética Finalmente a obscenidade da morte de
centenas (ou milhares?) de pessoas vítimas da tome, em um país onde
toneladas de alimentos apodrecem nos armazéns do governo. Tudo isso é
verdadeiramente OBSCENO.
Fico
com um adeus aos Mamonas do Sorriso. Mamonas da Alegria. Mamonas
Assassinas da Tristeza e do Baixo Astral. O sucesso de vocês era
espiritual. Conseguira junto aos mortais do Brasil. Agora levem a sua
irreverência para outras galáxias. Mostrem para os anjos e ET’s em geral
como se dança o Robocop Gay, Vira Vira, Jumento Selestino, Pelados em
Santos e aquela bem engraçadinha e que a criançada adora, Sabão Crá Crá.
Mostre os outros sucessos musicais que ficaram gravados na memória de
toda uma geração obscena. Fico com o perfil profissional de cada um de
vocês: Dinho com seu talento para a imitação e a palhaçada. Sérgio na
bateria, Samuel no baixo, Bento como um dos maiores guitarristas que já
apareceram por aqui, e finalmente meu quase xará Júlio César Barbosa e
seu teclado mágico. Até breve Mamonas do Bem, pois “nesse raio de
suruba, já me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém...” – f.
césar barbosa
***
"É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte". - Caetano Veloso

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