quinta-feira, 10 de março de 2016

OS MAMONAS DO BEM

No último dia 02 fez 20 anos da morte dos cinco integrantes do grupo Mamonas Assassinas. Naquela época eu editava o zine alternativo, O Potiguar. A calçada do Café São Luiz era um campo de ideias e vários jornalzinhos circulavam entre os bebedores de café. No dia imediato ao do acidente publiquei a edição de número 09 do V Ano.. Título: Os Mamonas do Bem. Abaixo segue o texto na integra. - cp

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OS MAMONAS DO BEM

Manhã do dia 03. 0 Brasil acorda com a triste notícia de que o pequeno avião que caiu na noite anterior na Serra da Cantareira, São Paulo, trazia um grupo de nove pessoas; dentre elas os cinco integrantes da nova mania da garotada, e de muitos adultos também, Mamonas Assassinas. Não deu para acreditar! Depois da morte de Ayrton Senna o filme voltava a ser rodado outra vez: sucesso, futuro promissor, talento, dinheiro; muito dinheiro, planos e mais planos. E tudo caiu com um avião. Milhões de perguntas povoaram a mente das pessoas: por que assim? Por que com eles? Por que tão jovens? Como se a morte fosse um privilégio só dos velhos.

Não faz muito tempo eu escrevi sobre a importância da morte em nossas vidas. Com ela nós alcançamos a Vida Eterna. Todos precisamos morrer, por uma necessidade espiritual e biológica. É claro que não vamos sair por aí procurando a morte, mas um dia ela corre ao nosso encontro, e como só nos preparamos para a vida (um paradoxo, pois a vida é passageira), quando ela chega é um desastre entre os que ficam. Continuo acreditando na necessidade de nos prepararmos para a vida em “outras moradas”.

Na morte de Dinho, Samuel, Sérgio, Bento e Júlio, a maior especulação era com relação ao sucesso alcançado tão rápido, depois de muitas dificuldades no anonimato, e a perda, de forma violenta e brutal. Como sempre pensamos no sucesso material. Aquela que nos garante a sociabilidade aceitável: fama, poder e glória. Com isso não só esquecemos do sucesso espiritual como também nos distanciamos dele. Os Mamonas alcançara esse sucesso espiritual. Ao longo de pouco mais de seis meses eles concentraram muitas energias positivas. Por onde passavam eles assassinavam a tristeza e o desânimo. As pessoas em sua volta exorcizavam todo e qualquer sentimento de derrota. Só havia espaço para a alegria. Com isso foi criada uma auréola de positividade e esse era o sucesso que os seus espíritos precisavam para alcançar o nirvana. O supremo. E possível que o leitor argumente que eles cantavam músicas com letras obscenas, mas eu defendo-os mostrando que tudo é obsceno neste país. Aliás, o Brasil já nasceu obsceno. Educa seus filhos na obscenidade da mentira, da corrupção, na desigualdade social, na selvageria do capitalismo com seus obscenos frutos: falcatruas, salário mínimo de cem reais para um trabalhador. A obscenidade da mortalidade infantil, as verbas destinadas para a saúde desviadas para programas eleitoreiros; para contas fantasmas ou para contas numeradas na Suíça. A obscenidade da Imprensa Marrom. A obscenidade do Judiciário comprometido com o sistema. A obscenidade da exploração religiosa por todas as Igrejas mercantilistas pseudo cristãs. A obscenidade da discriminação, das intermináveis viagens de Fernando Henrique Cardoso, bancadas com o dinheiro do contribuinte. A obscenidade da exploração ao menor, tirando-o da sala de aula e jogando-o nas mãos de empresários inescrupulosos. A obscenidade da prostituição infantil, do sangue contaminado de Caruaru. A obscenidade do escândalo dos Bancos, das reformas de FHC para derrotar o trabalhador brasileiro, a pasta cor-de-rosa. A obscenidade da representação política escolhida democraticamente (sic) para defender o povo. A obscenidade da hipocrisia, da inveja, da ética Finalmente a obscenidade da morte de centenas (ou milhares?) de pessoas vítimas da tome, em um país onde toneladas de alimentos apodrecem nos armazéns do governo. Tudo isso é verdadeiramente OBSCENO.

Fico com um adeus aos Mamonas do Sorriso. Mamonas da Alegria. Mamonas Assassinas da Tristeza e do Baixo Astral. O sucesso de vocês era espiritual. Conseguira junto aos mortais do Brasil. Agora levem a sua irreverência para outras galáxias. Mostrem para os anjos e ET’s em geral como se dança o Robocop Gay, Vira Vira, Jumento Selestino, Pelados em Santos e aquela bem engraçadinha e que a criançada adora, Sabão Crá Crá. Mostre os outros sucessos musicais que ficaram gravados na memória de toda uma geração obscena. Fico com o perfil profissional de cada um de vocês: Dinho com seu talento para a imitação e a palhaçada. Sérgio na bateria, Samuel no baixo, Bento como um dos maiores guitarristas que já apareceram por aqui, e finalmente meu quase xará Júlio César Barbosa e seu teclado mágico. Até breve Mamonas do Bem, pois “nesse raio de suruba, já me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém...” – f. césar barbosa

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"É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte". - Caetano Veloso

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