Eu jamais poderia imaginar que um dia
iria ler um livro contando a historia que este conta: 60 mil pessoas mortas –
entre o começo do século passado e a década de 1980. Sessenta mil pessoas
mortas no Brasil, em um Campo de Concentração... Condenadas a viver em um
hospital-presídio, sem ter matado, roubado, ou destruído... Seus únicos “crimes”
pode ter sido..., ser..., diferente. Dia 4 de março fui visitar o casal amigo
Wilson e Fátima. Ela, que trabalha no Hospital Dr. João Machado, me emprestou o
livro. Pedi dois meses para entregá-lo, pois “estou sem tempo”, argumentei. Li
em dois dias. Comecei e não conseguia parar de querer saber daquelas histórias terríveis,
de abandonos, rejeições, humilhações, degradações, torturas, mortes. Eu simplesmente
estava sem compreender que tamanha monstruosidade aconteceu bem perto de mim. Ouvi
sobre judeus, ciganos, homossexuais, todos mortos, sob a bota nazista de Adolf
Hitler, os milhares de prisioneiros de Stalin, na União Soviética, os mais de
um milhão de mortos sob as ordens de Pol Pot, no Camboja, e feitos horrendos
praticados por outros “demônios” encarnados ao longo da história. Mas aqui,
perto de mim? Aqui! Recomendo mas, reconheço
que não é fácil conhecer uma atrocidade como esta narrada no livro da
jornalista Daniela Arbex. Como se diz em minha terra, “é preciso ter ‘tripa’
para lê-lo”... O livro todo poderia ser resumido a uma única a afirmação de um
psiquiatra italiano, Franco Basaglia. Que estarrecido, disse: “Estive hoje num
campo de concentração nazista. Em nenhum lugar do mundo presenciei uma tragédia
como essa”. Mas, também desejo dizer algo. Tudo aconteceu em um hospício na
cidade de Barbacena (MG). Pessoas eram jogadas naquele lugar por motivos
diversos: mulheres jovens, filhas de ricos, que engravidavam sem maridos, filhas
de ricos contrarias a forma como o pai dirigia a família (e luta por emancipação),
homossexuais, gente contrária à política que comandava a nação, epiléticos, negros,
gente denominada pelas autoridades de “vadios”, viciados, gente denominada
“arruaceira”, com problemas mentais, entre outros (“desde o inicio do século XX,
a falta de critério para as internações era rotina no lugar onde se padronizava
tudo, inclusive os diagnósticos”, descreve a autora). Todos no mesmo lugar. Homens,
mulheres, crianças, velhos (“Dentro dos pavilhões, promiscuidade. Crianças e
adultos misturados, mulheres nuas à mercê da violência sexual”, descreve a
autora). Todos jogados juntos com o simples status de..., “doidos”... Dormindo
no chão, bebendo água de esgoto (alguns a própria urina!), comendo comida,
muitas vezes estragada. Durante a noite ficavam confinados em pavilhões.
Durante o dia vagavam pelo pátio. Muitos deles com roupas em frangalhos ou, simplesmente,...,
nus (uma das pacientes, quando pode sair para morar em unidades terapêuticas
extra-muro, chegou a vestir três vestidos. Um sobre os outros. Indagada de o
porquê, respondeu que passara anos nua...). Muitos amanheciam mortos (em torno
de 16 mortes por dia), por causa do intenso frio da Serra da Mantiqueira. Detalhe:
todo aquele movimento sob a “supervisão” de urubus, empoleirados nos muros do “Colônia”,
o nome daquele terrível lugar. A escritora não se esqueceu de mencionar os “urubus”
humanos. Aqueles que não só foram coniventes (médicos, funcionários comuns,
padres, freiras e, os piores: familiares...), como também, obtiveram lucros com
os “doidos”: trabalhos pesados (fora do hospital), sem remuneração para o
paciente, venda de corpos para faculdades de medicina, e outros. O livro também
narra histórias comoventes - historias de abandono, violência, mortes,
encontros e desencontros. Curiosamente algumas com final feliz... De gente que
viveu toda uma vida no que Luiz Alfredo, fotógrafo da revista “O Cruzeiro”, que
esteve lá em maio de 1961, definiu como “A sucursal do inferno”... – [cp]





Nenhum comentário:
Postar um comentário