Maria
acordou, pontualmente, às 05h00min. A mãe, separada e com mais dois filhos – um
menino de 11 anos e outra menina de 8 anos – providencia o café para em seguida
os enviar a escola. A garota toma seu banho e volta ao minúsculo quarto, que
divide com os outros irmãos, e se arruma para ir para a escola. Depois de comer
apressadamente sai. Não sem antes dá uma última olhada no espelho. É vaidosa.
Observa seus lindos olhos negros, sua boca carnuda, pequenos seios e o corpo
curvilíneo. Sabe que é bonita e desejada pelos garotos. A ida ao
ponto do ônibus é tensa. Teme ser mais uma vez perseguida. Já foi por duas
vezes. O risco de ser assaltada, ou mesmo violentada é grande. Seu bairro é
pobre. Não há policiamento regular. O coletivo chega. Atrasado e já lotado.
Escorregando por entre os outros usuários Maria vai para o meio do veículo.
Freadas bruscas, cotoveladas, apertos; e calor faz parte do seu desconforto
diário. Ao chegar à ponte sua aflição aumenta. O engarrafamento infernal ameaça
sua chegada à escola. O conforto das pessoas nos carros ao lado a faz sonhar
com dias melhores. Quando finalmente poderá sair daquela situação de sacrifício.
Pensa que um dia poderá ser uma advogada, ou médica, engenheira, secretária de
uma grande empresa. Ou mesmo tocar violino na Orquestra Sinfônica da cidade.
Algo que a faça viver com dignidade. Pensa em se apaixonar, casar, ter filhos.
Constituir sua família. Depois
de um penoso trajeto, entre a Zona Norte e o Centro, Maria chega a sua escola.
Ao cruzar os batentes daquele estabelecimento educacional é informada por uma
colega de classe que a professora de física vai faltar mais uma vez. A segunda
aquela semana. Na primeira foi por uma razão particular. Agora ela – a
professora – vai compor um grupo que irá reivindicar salário junto ao governo.
Maria teme para uma possível greve onde acabará sobrando para ela e seus
colegas, ameaçando mais um ano letivo. Acaba o primeiro horário. Vai ao
recreio. Não há merenda. Maria é informada que o motivo foi uma falha no envio
da solicitação, por parte da direção, ao armazém do governo, o que gerará um
atraso. Sabe Deus de quanto tempo. Enquanto outros alunos se divertem, Maria
pensa em seu futuro. Quer uma saída mais rápida para sua situação. É uma aluna
aplicada e pensa que ao se formar todas as suas dificuldades ficarão para trás.
Aquele dia sem merenda será só mais um tijolo que servirá para construir seu
sonhado futuro brilhante. Acaba a aula. Hora de voltar para casa. O
ônibus chega. Maria entra e senta quase no fim do transporte. Pensa na
dificuldade do retorno. Acomodando-se no assento, percebe páginas de um jornal
dobrado entre a sua poltrona e a lateral do veículo. Para se distrair pega
aquelas folhas amassadas, deixadas por alguém que sentou ali antes dela.
Aleatoriamente Maria o abre na página 17 do Jornal de Hoje do dia 20 do
corrente. Num primeiro momento ela fica fascinada com a silhueta feminina, de
biquíni, desenhada por Brum, para ilustrar a matéria intitulada: SEXO NO HIGH
SOCIETY. Escrita por Conrado Carlos. A palavra em inglês é desconhecida
para ela. Desperta sua curiosidade de adolescente e a faz se interessar pelo
conteúdo. Maria descobre ali a “história” de Cláudia: loira, 25 anos, bonita,
cheirosa, 1,60m, 52 quilos, e bem sucedida como prostituta no “emergente
mercado da prostituição em Natal”. Faturando entre 15 e 28 mil reais por mês. A
menina moça está em estado de êxtase. Misto de deslumbramento, tensão, e uma
série de dúvidas - provocadas por sua simples e digna educação dada por sua
mãe. Travam um “sanguinário” duelo entre a “fantasia” de Cláudia, a sua
realidade. Milhões de questionamento povoam sua linda cabecinha adornada por
longos cabelos negros. No caminho para casa, depois de descer do ônibus,
Maria vai deixando no lixo seus cadernos, livros e sonhos de viver uma vida
honesta. Um trabalho honesto; que a faça ser respeitada pelos seus e pela
sociedade em que vive. Ao chegar a casa, com um sorriso de “vitoriosa” anuncia
a sua genitora: “mãe, decidi minha vida. Mudei meu nome. Agora sou Bruna. Vou
ser prostituta!” - [Chico Potengy]
NOTA: Este texto foi publicado no Jornal de Hoje - maio de 2010. Resposta a uma entrevista, de uma prostituta, um dia antes no mesmo jornal.

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