sábado, 18 de abril de 2015

PLANOS TROCADOS



Antes de contar o que vou contar, um preâmbulo se faz necessário. Aconteceu porque tinha que acontecer como aconteceu (sem trocadilho!). As vezes me sinto "testado". As vezes obedeço... O assunto me incomoda. Não quero "gloria" disso, "Deus me livre!" Não quero "louros", "Nossa Senhora me defenda!" Vou contar pela necessidade de que o leitor se sinta motivado a ajudar o próximo. Se é que se possa tirar algo positivo do que vou narrar... Uma noite de 2011 uma amiga me convidou para "beber café" em sua casa. Passava da meia noite. Fui à casa dela, nos Guarapes. Nos Guarapes!... Para quem não conhece, os Guarapes é o último bairro de Natal (Zona Oeste), no limite com o município de Macaíba. Se o leitor pesquisar, vai ver que, até geograficamente o bairro é excluído da capital. Indo pela RN 160 tem-se a nítida impressão que está no interior... E bem longe! As vezes fazemos coisas sem pensar, agindo pelo prazer da aventura, sei lá! O GPS não reconhecia a rua da moça. Fui assim mesmo. Afinal, "café" é "café"... Quando sai da RN 160 e entrei na estrada de acesso ao Bairro dos Guarepes, a escuridão me cobriu. Confesso que tive medo. 300 metros, encontrei as primeiras casas e iluminação de rua. Segui por mais de um quilômetro pelo asfalto. Depois mais um pelo paralelepípedo e cheguei numa estrada de barro. As casas e os postes ficaram para trás. Não tinha a menor ideia de onde me encontrava. Os buracos na estrada me mantiveram na segunda marcha. Eu estava mais arrepiado do que um gato quando encontra um pit bul (é assim que se escreve? Pit bul...). Luz, finalmente, graças a Deus! Um "alivio". Eu não sabia, mas, estava chegando no "Loteamento Leningrado"! Tire um "fino" no nome do lugar!? Uma mulher e duas crianças apareceram a minha frente. Assim, do nada. Uma das crianças nos braços da mãe e a outra segurando a barra do vestido dela. Parei ao seu lado e perguntei que lugar era aquele. Não se via vivalma! Foi aí que soube que estava em "Leningrado" e a rua que eu precisava encontrar estava à mais de quatro quilômetros às minhas costas. Enquanto manobrava o carro, numa rua estreita e enladeirada, aquela sofrida descia a estrada escura com suas crianças. Alcancei-a num lugar que eu não pararia DE DIA! Perguntei de onde vinha aquela hora com as crianças:


- Ômi de Deus, venho cum êcir minino do Sandra Celeste. Aquela infiliz di Micarla butô aquêli ospitá lá nu inferno, na caza du satanaz! Tívi qui i apé pra igreja di Edir Macedo pra pegá o 33A. U útimu ônhibu. Dici alí in Lenigrado. Já andei, meu fíi, cum êcir minino apé, qui nun aguento mais! 


- A senhora vai pra onde? - perguntei com as tripas todas se revirando dentro de mim.


- Eu móru nu "Infernin"! 


"Inferninho" é um lugar "quente" dos Guarapes. Perguntei se ela aceitava uma carona. A mulher me botou do céu pra dentro umas dez léguas, enquanto sentava atrás. Perguntei se tinha marido. Tinha! "Ele tá vino mim incrontá", garantiu. Amigo leitor, deu a "gota serena" e eu não vi esse homem. Só há um caminho, mas, ele não apareceu. Deixei aquela "pobre diabo" em sua casa (meu Deus, aquilo é uma casa?) E fui "voando" para a minha. Mil pensamentos na cabeça. Literalmente esqueci o motivo pelo qual estava indo alí - também nunca mais voltei. Cheguei em casa e tive uma crise de choro maior do mundo. Me senti impotente. Frustrado por não poder fazer nada pelo meu povo. Quem tem a responsabilidade de fazer... - fcésar

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